Deir Yassin

Referência: GATTAZ, André. A Guerra da Palestina: da criação do Estado de Israel à Nova Intifada. 2ª ed. São Paulo, Ed. Usina do Livro, 2003. pp. 109-114

Deir Yassin era uma típica vila palestina, com pouco mais de mil habitantes. Suas casas de teto plano enfileiravam-se no topo de uma montanha localizada a cerca de dois quilômetros a oeste de Jerusalém. Seus habitantes cultivavam damascos, azeitonas e vinhas em terraços na encosta da montanha. Como a vila encontrava-se próxima a diversos assentamentos judaicos e poderia facilmente ser cercada pelas forças sionistas, o muktar (líder religioso da aldeia) havia feito um acordo de não-agressão com os judeus dos assentamentos vizinhos – e, apoiado nesse acordo, havia negado permissão para que forças árabes usassem a cidade como base.
Em abril, comandantes locais dos grupos terroristas Irgun e Stern procuraram o comandante da Haganah em Jerusalém, David Shaltiel, desejando tomar parte na operação destinada a abrir um corredor entre Jerusalém e Tel-Aviv. Embora receoso, Shaltiel acabou por autorizar o ataque, embora argumentasse que haveria outros objetivos mais valiosos do ponto de vista militar. A operação foi chamada de Unidade, por reunir numa só ação os três setores das forças judaicas – Haganah, Stern, Irgun –, embora a primeira entrasse, a princípio, apenas com apoio ‘logístico’ e armamentos, além de enviar um ‘observador’, o jovem oficial Meir Pa’il. Nos dias seguintes, os líderes dos dois grupos terroristas reuniram-se para planejar o ataque, que visava ‘quebrar o moral árabe’ e criar pânico entre os árabes palestinos. Segundo um comandante da Irgun, a maioria dos comandantes presentes às reuniões “decidiu pela liquidação de todos os homens na aldeia e de quaisquer outros que se opusessem a nós, mesmo que fossem velhos, mulheres e crianças”. Anos depois, um militar israelense relatou:
“Sofremos um revés de natureza diferente em 9 de abril, quando unidades combinadas da Etzel [Irgun] e Stern Gang executaram um ataque deliberado e não provocado contra a vila árabe de Deir Yassin, no lado ocidental de Jerusalém. Não havia razão para o ataque. Era uma vila tranqüila, que havia negado a entrada às unidades de voluntários árabes de outros países, e que não tinha se envolvido em nenhum ataque às áreas judaicas. Os grupos dissidentes escolheram-na por razões estritamente políticas. Foi um ato deliberado de terrorismo.”
Na madrugada do dia 9 de abril de 1948, a força de assalto sionista, com 120 homens, aproximou-se da aldeia. Os sentinelas, armados de velhos rifles turcos, alertaram a população, que rapidamente começou a fugir para as aldeias vizinhas, enquanto alguns homens faziam frente aos invasores. No começo, os sionistas fizeram pouco progresso; segundo o observador da Haganah, Meir Pa’il: “Eles conseguiram ocupar apenas a metade oriental da aldeia, não conseguiam ocupar a metade ocidental. Dez ou doze árabes atiravam contra eles usando apenas rifles, não tinham armas automáticas, e seguraram-nos do lado oriental”.
Percebendo a dificuldade dos invasores sionistas, o próprio Pa’il enviou um mensageiro a uma base próxima da Haganah, solicitando reforços. Logo, um pelotão da Palmach (a força principal da Haganah) chegou à aldeia, ocupando-a em poucos minutos e sem nenhuma baixa. Com a vitória, o pelotão da Palmach retirou-se, deixando as ações sob responsabilidade dos comandantes terroristas.
O que se seguiu na aldeia foi a mais brutal selvageria, e embora até hoje a literatura sionista e israelense divida-se quanto aos seus motivos e conseqüências, há unanimidade entre os historiadores árabes e ocidentais, e entre observadores de organizações humanitárias, de que o que houve em Deir Yassin foi uma matança deliberada e cruel da população civil com o objetivo de atemorizar os habitantes de toda a região e provocar a sua fuga. Anos depois, o jornal judaico-americano Jewish Newsletter relatou:
“Depois que os homens da Haganah se retiraram, membros da Irgun e do Grupo Stern perpetraram as mais revoltantes atrocidades: 254 homens, mulheres e crianças árabes foram massacrados a sangue frio e seus corpos mutilados foram atirados em um poço; mulheres e moças árabes capturadas foram trazidas em caminhões para Jerusalém e conduzidas em parada pelas ruas, onde eram humilhadas e cuspidas. No mesmo dia, os irgunistas deram uma entrevista à imprensa na qual disseram que a matança coletiva era uma ‘vitória’ na guerra de conquista da Palestina e da Transjordânia.”
Para completar a ocupação da cidade, os terroristas jogavam granadas pelas portas das casas e metralhavam indiscriminadamente a todos os que vissem pela frente. Mulheres tiveram suas barrigas rasgadas por baionetas, e crianças foram mortas em frente a suas mães. Uma comissão inglesa que entrevistou sobreviventes alguns dias depois, concluiu que “muitas atrocidades sexuais foram cometidas pelos atacantes judeus. Muitas jovens mulheres foram estupradas e depois trucidadas. Mulheres idosas também foram molestadas”. Alguns corpos foram encontrados com mais de 60 tiros, ou com membros amputados. Quinze casas foram dinamitadas, incluindo a casa do muktar, enquanto as demais foram saqueadas.
A matança só diminuiu com a chegada dos habitantes de Givat Shaul, assentamento judaico vizinho a Deir Yassin, que impediram um número ainda maior de vítimas – embora alguns prisioneiros que foram levados em parada para Jerusalém posteriormente tenham sido executados, e na manhã seguinte ainda houvesse atos isolados de crueldade. O médico da Cruz Vermelha, o suíço Dr. Jacques de Reynier, foi uma das testemunhas ocidentais do massacre, chegando a Deir Yassin a tempo de presenciar as últimas ações terroristas (segundo texto de Michael Palumbo):
“De acordo com de Reynier: ‘a limpeza foi feita com metralhadoras e depois granadas de mão. Foi terminada com facas, qualquer um podia ver isso’. O médico suíço ficou particularmente chocado por uma das terroristas que segurava uma faca. ‘Uma bonita jovem com olhos criminosos, mostrou-me a faca com sangue ainda pingando, ela me mostrava aquilo como se fosse um troféu’. O comportamento dos terroristas sionistas lembrou o médico da Cruz Vermelha de seu serviço durante a Segunda Guerra Mundial. ‘Tudo em que eu pensava era nas tropas SS que vi em Atenas’. O médico da Cruz Vermelha viu ‘uma jovem apunhalar um casal de velhos sentados na entrada de sua cabana’.”
O saldo do massacre foi de 254 civis palestinos mortos, grande parte constituída por crianças, mulheres e idosos. Os sobreviventes fugiram aterrorizados, abandonando a aldeia e disseminando o pânico entre a população palestina. Entre os invasores, o número total de mortos foi de quatro.
Embora haja fortes evidências de que a Haganah tivesse conhecimento dos objetivos dos dois grupos terroristas, e tenha colaborado com a cessão de armas e da efetiva ocupação da aldeia quando os paramilitares viram-se em dificuldades, não fazia parte do discurso oficial do organismo de defesa da Yishuv a matança de população civil com os requintes de crueldade que se viram em Deir Yassin. O evento, assim, foi rapidamente condenado pelos líderes do establishment sionista – embora nenhuma punição fosse efetivamente tomada contra os comandantes que organizaram o massacre.
Desde então o fato suscita polêmica na historiografia israelense. Muitos historiadores e políticos da direita israelense negam que tenha ocorrido qualquer massacre – como Menachen Begin, então líder da Irgun e futuro primeiro-ministro, que em suas memórias afirma que seus oficiais tentaram evitar “qualquer morte desnecessária” em Deir Yassin. Outras fantasias foram criadas pelos terroristas dos grupos Irgun e Stern para explicar o alto número de mortos entre os civis – que, beirando o ridículo, sequer serão mencionadas aqui.
O ramo principal da historiografia israelense, entretanto, vem tentando desvincular a conduta dos grupos terroristas das políticas oficiais da Haganah – ao mesmo tempo que tenta justificar a violência da ocupação e reconhece que sem a participação da Irgun e da Stern, o Estado de Israel não seria o mesmo que é hoje. Bom exemplo dessa tendência é o próprio soldado-historiador Meir Pa’il, que apesar de criticar a conduta dos terroristas judeus contra a população da aldeia, tenta justificá-la como uma reação à “tenaz e inesperada resistência” dos habitantes – afirmação que é completamente refutada diante da evidência de que apenas quatro invasores foram mortos na invasão. Da mesma forma, Dan Kurzman, importante historiador da gênese do Estado israelense e acrítico quanto à liderança terrorista, faz uma interessante narrativa do evento – relata com certo realismo a ferocidade dos invasores, porém justifica-a através de falsidades históricas (grifos meus):
“Os sternistas abandonaram o carro blindado e começaram a responder ao fogo árabe. Eles atacaram a primeira fila de casas (de onde os tiros estavam saindo), jogando granadas através das janelas e metralhando os interiores assim que derrubavam as portas. Assim que a fumaça baixava em cada uma das casas, mulheres e crianças jaziam mortas e feridas com seus homens combatentes. Mas os árabes continuavam lutando, e enquanto as baixas entre os judeus aumentavam, os atacantes, raivosos e frustrados por uma situação com a qual não contavam, começaram a matar com ferocidade crescente. [...] Nem todos os atacantes eram cuidadosos para distinguir entre a matança intencional ou não intencional de não-combatentes. Enfurecidos pela resistência inesperada, alguns perderam toda restrição e friamente matavam qualquer árabe que encontrassem – homem, mulher ou criança.”
Dois aspectos históricos aparecem especialmente distorcidos na narrativa de Kurzman: a questão das baixas entre os judeus (como já foi citado, apenas quatro militares israelenses foram mortos, contra 254 civis palestinos) e a cronologia dos eventos (o massacre não se deu na primeira fase do ataque, enquanto havia propriamente um combate devido à resistência oferecida pelos homens da aldeia, porém depois da ocupação realizada sem baixas pela Palmach).
Entre os árabes, o impacto emocional do massacre de Deir Yassin foi – e continua sendo – imenso. Os sobreviventes fugiram, espalhando pelas outras aldeias o pânico – o que foi reforçado pelas demais táticas de terror empregadas pela Haganah e associados (ver adiante). Na literatura árabe sobre o assunto, que inevitavelmente carrega grande conteúdo emocional, Deir Yassin é colocado como um marco, como a ‘Pedra Fundamental’ do Estado sionista, baseado na desocupação da terra de seus habitantes nativos através da força das armas, do dinheiro e do terror, para a implementação de um projeto colonialista. Para a infelicidade dos palestinos, Deir Yassin não foi a única aldeia a ser massacrada e sumir do mapa. Foi a primeira.

Ibid., p. 48.
Joseph, Dov, The Faithful City (Nova York, 1960), p. 71-2, apud United Nations. The Origins and Evolution of the Palestine Problem 1917-1988, Parte II, Cap. V.
Palumbo, The Palestinian Catastrophe, p. 49
Jewish Newsletter (Nova York), octtober 3, 1960, apud Menuhin, Moshe. Judaismo hoje: palestina, árabes e judeus. (Rio de Janeiro, 1969), p. 106.
Palumbo, The Palestinian Catastrophe, p. 54
Ibid., p. 54.
Kurzman, Genesis 1948, p. 142, 145.

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