As “dores do parto” de um novo Oriente Médio

As “dores do parto” de um novo Oriente Médio
Anabela Fino

Avante!

«Não vejo qualquer interesse na diplomacia se for para voltar ao status quo anterior entre Israel e o Líbano. Penso que isso seria um erro. O que nós estamos a presenciar, de certa forma, é um começo, são as dores do parto de um novo Oriente Medio, e seja o que for que façamos, devemos estar certos de que avançamos para o novo Oriente Médio e que não voltaremos ao antigo».

As palavras são de Condoleeza Rice, secretária de Estado norte-americana, e foram proferidas a 21 de Julho num encontro com a imprensa em resposta à questão sobre as iniciativas que os EUA se propunham implementar para restaurar a paz no Líbano.

A afirmação de Rice pode ser chocante, mas não é certamente uma novidade; antes confirma que a teoria do “caos construtor” está em marcha: o verdadeiro poder não se exerce pelo imobilismo mas sim pela destruição de todas as formas de resistência.

Um recente artigo de Thierry Meyssan (jornalista e escritor, presidente do Réseau Voltaire), recorda aos mais distraídos ou de memória curta que não há nada de novo na vontade israelita de desmantelar o Líbano e de criar aí um mini-Estado cristão, anexando de caminho uma parte do seu território.

O desiderato foi enunciado em 1957 por David Ben Gourion (primeiro-ministro de Israel de 1948 a 1963, de forma quase ininterrupta), numa carta a Moshe Sharett (seu sucessor por um breve período, entre 1953 a 1955), publicada em anexo das suas memórias póstumas (www.voltairenet.org/article9886.html). O objectivo volta a ser enunciado em 8 de Julho de 1996, num documento intitulado «Uma rotura limpa: uma nova estratégia para a segurança [de Israel]», onde se prevê:

– a anulação dos acordos de paz de Oslo;

– a eliminação de Yasser Arafat;

– a anexação de territórios palestinos;

– o derrube de Saddam Hussein no Iraque para desestabilizar a Síria e o Líbano;

– o desmantelamento do Iraque com a criação de um Estado palestino no seu território;

– a utilização de Israel como base complementar do programa norte-americano de guerra das estrelas.

O documento, com o título inglês “A Clean Break: A New Strategy for Securing the Realm, IASPS”, divulgado na época pelo jornal Guardian, inspirou o discurso proferido a 9 de Julho de 1996 pelo então primeiro­‑ministro israelita, Benjamin Netanyahu, no Congresso dos EUA: ameaças contra o Irã, a Síria e o Hezbollah, tendo à cabeça a reivindicação da anexação de Jerusalém Oriental.

DAS PALAVRAS AOS ATOS

Que não se está perante uma paranóia da “teoria da conspiração” comprovam-nos os fatos.

O desejo de Bush de levar a cabo uma «remodelação do Grande Oriente Médio», nas suas próprias palavras, com o objetivo de controlar as zonas ricas em hidrocarbonetos – designadas por Zbignew Brezinski (antigo conselheiro de Segurança Nacional de Carter) como o «arco da crise», ou seja, o arco que vai do Golfo da Guiné ao mar Cáspio, passando pelo Golfo Pérsico – exige uma redefinição de fronteiras que já está a ser preparada.

Os palestinos estão confinados a 22 por cento da Palestina histórica; a Faixa de Gaza e a Cisjordânia estão separadas; a autoridade palestina arruinada, com ministros e parlamentares presos ou sequestrados; o muro do apartheid israelita destrói casas, separa pessoas das suas famílias e terras agrícolas; os assassinatos seletivos e as punições coletivas são uma constante; a morte de Arafat continua envolta em mistério; os acordos de Oslo estão mortos e enterrados.

O pretexto para o ataque ao Líbano – resgatar soldados israelitas “sequestrados” pelo Hezbollah – é uma mistificação. Segundo fontes independentes, terá sido o exército israelita quem introduziu um comando na região libanesa de Aita al Chaab, onde os soldados foram atacados pelo Hezbollah, que capturou dois deles. A versão oficial, repetida à exaustão, é que foi o Hezbollah a entrar em território de Israel.

O Hezbollah, o alvo a abater, é apontado como sendo “armado e financiado pela Síria e pelo Irã”, dois países catalogados por Bush como fazendo parte do “eixo do mal”. Irrelevante passou a ser o fato do Hezbollah ter sido formado como uma defesa contra a bárbara invasão do Líbano por Ariel Sharon em 1982, que provocou 22 mil mortos.

Por outro lado, o desarmamento do Líbano, no passado recente, com a expulsão das forças sírias, na sequência do muito oportuno assassinato do antigo primeiro-ministro Rafic Hariri, atribuído à Síria, não poderia ser mais conveniente para Israel.

Enquanto isso, Saddam Hussein foi derrubado a pretexto de armas de destruição massiva que não existiam, e o Iraque ocupado e destruído. A tenaz resistência iraquiana não estaria prevista, mas a ingovernabilidade do país pode ajudar à divisão do território em pequenos estados que deixem de constituir uma ameaça para os planos do império.

No que toca ao Irã, a campanha de diabolização ocorre a vários níveis e em diferentes tons, desde os seletos fóruns da ONU ou da União Europeia às arruaças de jornais, como sucedeu a 19 de Maio último no National Post, do Canadá. O periódico online foi obrigado a pedir desculpas por ter publicado um artigo dizendo que o Irã aprovou uma lei exigindo que os judeus usassem um distintivo amarelo. O autor da “notícia” foi o jornalista iraniano exilado, Amir Taheri, que a 30 de Maio viria a ser convidado pela Casa Branca para integrar o grupo de “especialistas em Iraque” que aconselha George W. Bush.

Voltando às declarações de Condoleeza Rice, e atendendo ao que está a suceder no Líbano, forçoso se torna concluir que o império está a gerar um monstro.

Fonte: www.infoalternativa.org
­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­

Login do usuário