A história moderna de Jerusalém: a judaização

Mahdi Abdul Hagi

A onda de nacionalismo que varreu a Europa no século XIX chamou a atenção dos judeus e resultou no surgimento do movimento sionista na Europa.

A judaização de Jerusalém e da Palestina tem sido o tema principal do pensamento, da política e das práticas judaicos e sionistas desde a origem do sionismo até ao presente. O tema judaização pode ser tomado como referência aos programas ou processos para deslocar judeus para áreas predominantemente habitadas por palestinos. Isto foi realizado num processo em duas etapas: primeiro, imigrantes judeus chegam à Palestina; depois são integrados em colônias especiais. Entretanto, tal política não pode ter êxito sem um programa de despalestinização. O movimento sionista tentou realizar isso primeiramente por meio (a) de um controle sobre a terra, o trabalho, os recursos naturais, o governo e a soberania palestinos, e (b) a desenraização e expulsão dos palestinos da Palestina.

Os conceitos israelitas, sionistas e judaicos com relação a Jerusalém e à Palestina, bem como suas políticas e práticas se centraram nessas idéias, e as implementaram em várias etapa:

Como um parceiro ativo nos esquemas europeus de manipulação do mundo árabe;

Como um elo, sob o Sistema de Capitulações, entre a Europa e seus interesses no mundo árabe;

Como um movimento político na tradição dos movimentos colonialistas;

Como um movimento político alinhado com os regimes coloniais tradicionais;

Como a manifestação de um poder que rivaliza e serve como um sucedâneo para as potências imperialistas.

Um breve olhar sobre acontecimentos dos últimos séculos ilustrará essas afirmativas.

A manipulação européia

Durante centenas de anos na Espanha e em Portugal, os judeus prosperaram e formaram uma ponte cultural entre o islã e a cristandade. E enquanto a civilização árabe-islâmica dominou o Oriente Médio naquele tempo, Jerusalém e a Palestina eram, amiúde, a encruzilhada e o lugar de encontro de peregrinos religiosos e intelectuais das três grandes religiões monoteístas.

Mas o surgimento do colonialismo como força motriz na política internacional durante o século XVII afetou os interesses e as posições dos judeus. Personalidades judaicas influentes cooperaram com os esquemas imperialistas no mundo árabe das potências européias onde viviam. Foi isso exatamente o que aconteceu, por exemplo, durante a campanha de Napoleão contra o oriente árabe em 1798, quando Napoleão pediu aos judeus para ajudá-lo nas conquistas, em troca de retorno deles Jerusalém e da reconstrução do Templo de Salomão. Os judeus o apoiaram e entusiasticamente secundaram sua campanha, embora quando ele fracassou em sua tentativa de reconquista da Palestina e marchou em retirada de Acre, eles o tenham acompanhado, permanecendo árabe a Palestina.

O sistema de Capitulações

No fim do século XVIII, o aumento do interesse dos europeus no Oriente Próximo e o correspondente declínio do império otomano levaram ao Sistema de Capitulações, no qual as potências européias puderam obter privilégios e pontos de apoio no Oriente Médio em troca de propinas e favores ao sultão. Através da proteção e orientação de consulados estrangeiros (britânicos, franceses, austríacos e russos) grande número de judeus e instituições judaicas (Moisés Montefiori, a família Rotschild, a Allince Française) puderam construir assentamentos judeus fora dos muros de Jerusalém. Esses assentamentos se tornaram, mais tarde, o embrião da parte judaica da cidade. Incluíam o Assentamento Montefiori, construído em 1859 a oeste do Portão de Jafa; Mishkanot Shaananim, construído em 1860 em frente ao Portão de Jafa; e Nahlat Shivva, também de 1860, na estrada de Jafa. Entre os anos 1875 e 1878 surgiram Mea She'arim e Ivan Israel. Em 1882 a comunidade judaica (Yishuv) na Palestina residiu em quatro áreas urbanas, quais sejam, Jerusalém, Hebron, Tibérias e Safa, e constituía seis por cento da população palestina. Ela estava reunida dentro de seis colônias cuja área total era de 25.000 dunums (um dunum = 0.618 acres). A população judaica era composta basicamente de imigrantes russos e romenos que chegaram depois dos eventos de 1881-82 na Rússia.

Um dos colonos judeus expressou a natureza do pensamento judeu durante esse período, dizendo: "a meta final é realmente obter o controle da Palestina e devolver ao povo judeu a independência política da qual está privado há 2.000 anos".

Continuando a trabalhar sob orientação e proteção estrangeiras, e inspirado em projetos comerciais e financeiros europeus, Theodor Herzl (1860-1904) em seu opúsculo O Estado Judeu (1896) defendeu um movimento político copiando os movimentos colonialistas europeus. Herzl queria que o movimento sionista fosse um novo modelo para os movimentos colonialistas, e ele o descreveu como sendo "uma parte da trincheira européia contra a Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie". Ele descreveu seu plano e os meios que precisaria empregar para colonizar a Palestina com estas palavras:

"Que nos seja dada soberania sobre um pedaço de terra... e cuidaremos do resto... o plano é simples em sua forma, embora complicado em sua execução... duas organizações ficarão com o controle da execução do plano: a Sociedade Judaica e a Companhia Judaica."

Em seu diário, Herzl registrou a necessidade de se expropriar terra na Palestina e "encorajar" a população ao longo das fronteiras. Ele também acrescentou:

"Se algum dia capturarmos Jerusalém, e ainda estivermos vivos e capazes de fazer qualquer coisa, então destruiremos tudo que não for sagrado para os judeus ali."

O pensamento político nacionalista judeu durante esse período foi encorpado nos anúncios políticos do movimento sionista, cristalizados no Primeiro Congresso Sionista da Basiléia, em 1897. Outros desenvolvimentos institucionais dentro do sionismo se seguiram logo depois. Mas tais planos com vistas a estabelecer um estado exclusivamente sionista judaico na Palestina árabe e controlar Jerusalém falharam no essencial, mesmo após o término da Primeira Guerra Mundial, quando funcionários coloniais britânicos patrocinaram a primeira fase do movimento colonial sionista. De fato, durante a primeira fase da atividade sionista, entre os anos 1878 e 1918, a área de terra sobre a qual os judeus ganharam controle na Palestina correspondia a 2,48% do total do país. Em 1918 o número de judeus na Palestina não excedia 55.000, enquanto os palestinos somavam 700.000, isto é, 8% da população era judia e 92% era palestina.

A judaização durante a ocupação britânica

Em decorrência da revolta palestina de 1929 foi proposta a divisão da Palestina em cantões árabes e judeus.

Em decorrência da revolta palestina de 1936, a Comissão Real Britânica Peel propôs a divisão da Palestina em dois estados, árabe e judeu, e tornando Jerusalém um corpus separatum, não vinculado a nenhum dos dois estados.

Seguindo-se à Conferência St. James em 1920, a Grã-Bretanha emitiu o Papel Branco, que impôs restrições à imigração judaica e prometia uma terra independente palestina em dez anos.

Em 1941 o plano Morrison-Grady estabelecia uma curadoria britânica sobre a federação de duas províncias autônomas, uma árabe e uma judia, bem como a lei britânica diretamente sobre os distritos de Jerusalém e Neveg.

Em 1947 Ernest Bevin, então Secretário de Relações Exteriores britânico, propôs um estado unificado sob administração britânica temporária com cantões autônomos judeus e árabes.

Em fevereiro de 1947, a Grã-Bretanha anunciou que não estava preparada para continuar administrando a Palestina e pediu uma solução para as recém-criadas Nações Unidas. Os palestinos e os cinco estados árabes pediram o fim do mandato e a independência da Palestina, mas a Assembléia Geral recusou-se a incluir esse pedido em sua agenda e ao invés disso, nomeou em maio de 1947 um comitê especial (UNSCOP - Comitê Especial das Nações Unidas para a Palestina) para estudar a questão palestina.

UNSCOP apresentou dois conjuntos de recomendações. O relatório maior revivia a idéia de partilha e recomendava a divisão da Palestina em (1) um estado judeu; (2) um estado árabe; e (3) um corpus separatum sob administração internacional para as cidades de Jerusalém, Belém e adjacências. O relatório menor pedia uma união federal entre as regiões autônomas árabes e judias, com Jerusalém como a capital, mas com duas municipalidades separadas e independentes, uma árabe e outra judia. O relatório maior, com algumas modificações, foi adotado pelo Comitê ad hoc sobre a Questão Palestina, o qual fora criado para estudar as recomendações do UNSCOP. O relatório foi aprovado por dois terços de maioria na Assembléia Geral da ONU como a resolução 181, de 29 de novembro de 1947. Os palestinos recusaram a resolução da partilha por considerá-la injusta. A partilha conferia ao proposto estado judeu 56% da área Palestina, enquanto os judeus constituíam apenas 33% da população e detinha apenas 6% da área não urbana. Em 14 de maio de 1948, o mandato expirou e os britânicos se retiraram da Palestina naquele mesmo dia. Líderes sionistas aproveitaram a oportunidade para declarar unilateralmente o nascimento do estado de Israel em 14 de maio de 1948.

A resolução da partilha de 1947, da ONU, que incluía a internacionalização de Jerusalém, nunca foi implementada. Muitos fatores contribuíram para isso. O fator mais óbvio é que os palestinos recusaram-na porque ela os prejudicava em benefício dos judeus. Era importante, também, o fato de que o mundo árabe não estava preparado para aceitar o plano, nem unificado e forte o bastante para enfrentar efetivamente o emergente estado judeu. Finalmente, a resolução da partilha nunca foi implementada também por motivo do sionismo, e, mais tarde, da política de Israel. Eles usaram a rejeição árabe ao plano como uma desculpa para impulsionar seus planos de ocupação e judaização de Jerusalém e da Palestina.

Bem-Gurion revela esse aspecto do sionismo ao declarar:

"A questão de Jerusalém não é uma questão de rearranjos ou de políticas. É, primeiro e acima de tudo, uma questão de capacidade militar:

"Teremos a força militar (a) para ocupar a área da Cidade Velha; (b) para ocupar um corredor largo daqui (Telaviv) até Jerusalém, não apenas para atravessá-lo, mas para nele formar uma faixa colonizada que ligue Jerusalém ao resto dos territórios do estado judeu; e (c) destruir a Legião Árabe na área triangular. Sem isso, não se pode dizer que Jerusalém foi libertada".

Assim, os israelitas puseram em prática uma "teoria de transferência", que significava desenraizar os palestinos, quer matando-os, aterrorizando-os ou ainda forçando-os a deixarem suas casas. Em 9 de abril de 1948, por exemplo, o Irgun Zvai Leumi, de Menachen Begin, massacrou os palestinos da aldeia de Deir Yassin, localizada nos arredores orientais de Jerusalém, matando 250 pessoas, a maioria, idosos, mulheres e crianças. Em 28 de outubro de 1948, o 89º batalhão de Moshe Dayan massacrou os palestinos de Dawaymeth, uma vila no caminho entre Jerusalém e Ramallah, deixando 580 mortos. Begin considerou o massacre de Deir Yassin tão crucial para os sionistas que ele declarou: "não haveria Israel sem (o que ele chamou de) a vitória de Deir Yassin. Em julho de 1948, o exército israelita tentou ocupar toda Jerusalém, mas fracassou graças à resistência das forças árabes. Em setembro de 1948, como o ministro da defesa, Bem-Gurion sugeriu o empreendimento de uma operação militar para ocupar Latrun a fim de garantir uma "Jerusalém judaica". Em 1952, ele planejou ocupar toda Jerusalém e Hebron. Porém outra vez os esforços palestinos e árabes levaram ao fracasso as tentativas israelitas, com isso preservando o caráter árabe de Jerusalém e da Cisjordânia.

O entendimento do armistício de 1949 firmado entre Israel e os Estados árabes declarava que "as linhas do armistício não devem ser interpretadas em qualquer sentido como uma barreira política ou territorial". Não obstante isso, Israel não somente ultrapassou as barreiras propostas no plano de partilha de 1947 da ONU, mas também a linha do armistício em 1950 para conseguir o controle sobre 77% das terras palestinas. Em Jerusalém, Israel se apossou de 84,23% da superfície municipal, deixando 11,48% nas mãos dos palestinos. Os 4,39% restantes, se tornaram "uma terra de ninguém" sob supervisão da ONU. Israel cercou os assentamentos palestinos em Jerusalém Ocidental, como Abu Tur, Baqah, a Colônia Alemã, e Katamon, e trocou seus nomes para nomes hebreus: Abu tur se tornou Giv'at; at Hannah; Baqah se tornou Ge'ulem; a Colônia Alemã se tornou Rafa'im; e Katamon se tornou Gonim. Novos assentamentos judeus foram montados no meio e atrás dos mencionados assentamentos palestinos: Talpiot, Nova Baqah, Nova Katamon, Assentamento de Rasqo e Giv'at Mordechai. Vinte e nove vilas palestinas ao redor de Jerusalém forem destruídas, suas terras confiscadas, e seus habitantes forçados a partir.

Quanto aos eventos demográficos que se seguiram ao armistício de 1949, Israel abriu as portas para nova imigração ao baixar a "Lei do Retorno" em 1950, a qual concedia a qualquer judeu, onde quer que estivesse, o direito de emigrar para Israel, de ali se estabelecer, e de adquirir cidadania israelita. Assim, o número de judeus em Jerusalém cresceu de 84.000 em 1948 para 103.000 em 1949, para 167.400 em 1961 e para 196.000 em 1967. Israel proibiu e evitou que refugiados palestinos retornassem a seus lares, apesar da resolução 194 da Assembléia Geral da ONU, que proclamava (1) o direito dos refugiados palestinos ao retorno a seus lares, (2) a devolução de suas propriedades, e (3) compensação para aqueles que não quiserem retornar a seus lares. Havia aproximadamente 700.000 refugiados palestinos vivendo fora da Palestina, em decorrência dos entendimentos do armistício. Israel chamou os palestinos vivendo em Jerusalém e na Palestina ocupada como "árabes israelitas", ao invés de "palestinos".

Para preparar um modo de se apossar das propriedades palestinas e suprimi-las na Jerusalém ocupada em 1948, Israel baixou uma série de leis administrativas e legislativas. São exemplos as Leis de Emergência com respeito a "propriedades abandonadas", Suplemento B, Número 10, de 23 de junho de 1948; as Leis de Emergência relativas ao cultivo de terras ermas e ao uso dos recursos hídricos (1948); as Leis de Emergência (Zona de Segurança) de 1949; e a Lei de Propriedade dos Absentistas de 1950. Estas "leis" permitiram aos israelitas confiscarem tanto bens palestinos móveis como imóveis. Estima-se que chegaram a 80% os bens privados palestinos usurpados por Israel .

Completando a política de transformar Jerusalém numa cidade judia, em 11 de dezembro de 1949 Israel declarou Jerusalém sua capital e mudou a sede do governo para ali. O histórico cemitério Mamilah foi destruído e convertido em um parque. Foi construído um novo cemitério para políticos israelitas, em homenagem a Theodor Herzl, bem como construíram ainda um novo museu e um novo campus para a universidade Hebraica. Israel proibiu a menção à palavra "Palestina" ou à história árabe-islâmica nos currículos escolares, e restringiu a admissão de palestinos às universidades. Foram impostos também aos palestinos restrições no que tange a trabalho, residência e deslocamento.

Israel como uma potência colonial

A judaização desde 1967

Depois da guerra de junho de 1967, Israel se apressou a executar a Segunda etapa do seu plano de ocupação e judaização do resto de Jerusalém e de toda a palestina. Esse processo se deu com notável rapidez, e em todos os campos: militar, administrativo, legislativo, demográfico, geográfico, religioso e histórico-arqueológico. Seu fim último era a completa desenraização e destruição da Palestina.

A despeito das políticas e medidas para judaizar e despalestinizar Jerusalém desde 1948, 160.000 palestinos ainda vivem em Jerusalém, com instituições e organizações palestinas tratando de todos os aspectos de suas vidas. Seis milhões e quinhentos mil palestinos resistem à ocupação israelita, rejeitam suas "leis" e "políticas", e defendem com firmeza seus direitos. Consideram Jerusalém uma parte inseparável da questão palestina e um elemento fundamental do conflito palestino/israelita que não pode ser ignorado, e nem colocado em qualquer agenda palestina.

Conclusão

Na busca de uma solução política para o conflito palestino-israelita, a questão Jerusalém pode ser um fórum aberto e a melhor via para uma saída. A primeira lição que aprendemos da história de Jerusalém desde os tempos antigos até ao presente é que mais de um grupo tem reivindicações importantes e laços estreitos com Jerusalém. A outra lição é que enquanto o conflito sempre representou uma praga para a cidade, a coexistência e a tolerância tem precedentes significativos: desde que os israelitas começaram a partilhar da cidade com os jebusitas sob o rei Davi, até quando Omar reconheceu os direitos dos cristãos na cidade. De fato, embora a cidade esteja atualmente dividida, muitos jerusalemitas de diferentes religiões interagem construtivamente. Esta coexistência pode evoluir rumo à paz e à estabilidade em Jerusalém e realmente em toda a Palestina, desde que haja compreensão e respeito mútuos e simultâneos entre palestinos e israelitas baseados na tolerância e na justiça.

O problema de Jerusalém não será resolvido a menos que todos os direitos de ambos os povos – israelitas e palestinos – sejam reconhecidos no espírito da longa e variada história dessa cidade santa. Reconhecer os direitos coletivos de apenas uma população, os israelitas, constitui uma justiça indefensável. Tentar expulsar a presença árabe que dominou Jerusalém por 1.300 anos é uma afronta aos palestinos, à humanidade e ao legado de Jerusalém, contra os israelitas, árabes e a comunidade internacional devem resistir com firmeza. Todas as partes devem reconhecer que não há justificativa legítima para um governo exclusivo sobre toda a cidade. Isto tem de ser reconhecido substituindo-se o modelo atual por outro baseado na partilha da cidade: duas capitais, duas soberanias, duas municipalidades e dois povos vivendo de modo independente e próximo, numa cidade aberta e livre. Devemos "separar e partilhar".

Fonte: http://www.alfredo-braga.pro.br

"Todos os homens tem direito a liberdade de opiniao e expressao; este direito inclui a liberdade de, sem interferencias, ter opinioes e de procurar, receber e transmitir informacoes e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras."
Artigo XIX, Declaracao Universal dos Direitos Humanos, Paris, 1948.

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