Por Arturo Hartmann

Em 1948, cerca de 800 mil árabes foram expulsos de suas terras e suas casas na Palestina. O dia 15 de maio – que completa agora 61 anos – marcou o início da expulsão e é desde então lembrado como o dia da nakba, a catástrofe, e na verdade engloba não apenas aquela expulsão, mas seus ecos até o presente momento, pois não deixa de ser a causa da atual opressão e controle sofridos pelo povo palestino. A catástrofe de 15 de maio poderia dar nome a toda a genealogia do conflito, todas as suas etapas, as vitórias e retrocessos, as constantes mudanças pelas quais passam as formas de dominação israelense nos territórios da Palestina histórica (Israel e a Palestina) e na vida daqueles em diáspora a quem não foi permitido a volta à sua terra natal.
Algumas dessas histórias da diáspora puderam ser conhecidas com a chegada dos refugiados palestinos ao Brasil vindos de campos de refugiados da Jordânia. No contato que tive com alguns deles, pude perceber um certo medo que tinham em falar com a imprensa. Suas vidas como palestinos no Iraque e, depois, na Jordânia, ainda trazem angústias e preocupações. São capítulos vivos da questão palestina e olhos que testemunharam a catástrofe de 1948.
Aqui, o relato de dois deles. Um será protegido por um nome fictício, pois concordou em contar sua história após alguns minutos de hesitação desde que não ligasse suas ações a seu verdadeiro nome.

Agente da história
A história de Rushd foi revelada após uma pergunta que a ele pareceu absurda: se algum dia ele já havia visto a Palestina. Ele e a esposa riram. “Israel não permite que um palestino volte à Palestina.” Mas, após um instante de hesitação, admitiu. “Sim, já vi a Palestina.” Ele fez parte de unidades de resistência que foram lutar na guerra de 1967.
Nascido no território que hoje é Israel, tinha apenas dois anos quando fez parte das levas de não-judeus que não puderam permanecer no recém-nascido Estado judeu. Foi com a família, então, para a Jordânia, e de lá para o Iraque, onde construiu toda sua vida.
Ali começa a história de sua segunda visão da Palestina, fez treinamento e foi parte de unidades de elite da resistência palestina que por lá eram treinadas pelo exército iraquiano. Seus treinamentos, que se iniciaram em 1965, estavam destinados a servir-lhe na luta de 1967, na defesa dos territórios palestinos da Cisjordânia. Como a história conta, fracassaram. Israel ocupa até hoje partes da Cisjordânia com postos de controle, assentamentos de colonos e o mais recente muro do apartheid no interior do território.
Além do poder israelense, o fracasso se deu por uma falta de apoio mesmo de governos árabes. Nesse caso, um completo abandono, e mesmo perseguição como se veria em 1970, do governo jordaniano. Ele próprio teve que sair da Jordânia em 1971, época em que estava deflagrada uma disputa entre o governo daquele país e as unidades de resistência palestina.
Em 1967, a unidade da qual Rushd fazia parte entrou na Jordânia, em meio a outras do exército iraquiano. No caminho desses conjuntos militares, do Iraque através da Jordânia para que então entrassem na Palestina, sofreram alguns reveses. Todos os caminhos que faziam para entrar na Cisjordânia estavam sendo atacados por tropas israelenses. Os ataques eram feitos, relembra, por aviões de Israel. “O exército iraquiano recebeu notícia de que estava sendo espionado, alguém passava informações para Israel sobre nossos caminhos. Depois de investigarem, descobriram que era nosso guia jordaniano que dava as dicas. O exército, então, se espalhou.”
Algumas unidades conseguiram entrar na Cisjordânia, inclusive a de Rushd, que se chamava Trovão. Acreditavam que entrariam ali para ajudar a resistir a uma possível invasão israelense, pois supostamente encontrariam ali unidades do exército jordaniano. Quando entrou em território palestino, e por uma segunda vez viu a terra palestina, não havia resistência estruturada, apenas veículos e forças de Israel. “Surgiram, quando entramos, tanques e soldados judeus de Israel. Eles já tinham tomado conta da Cisjordânia.” Recuaram.
Com isso, as forças dividiram-se por cidades próximas à fronteira da Palestina com a Jordânia. Passaram oito meses nessa dinâmica, fazendo ataques esporádicos, de guerrilha, ao território ocupado. “Lembro que começaram a entrar exércitos palestinos guerrilheiros vindos da Cisjordânia. Eles falavam às autoridades jordanianas que eram do exército palestino que acompanhava unidades do Iraque. Eles traziam essas pessoas até nós, que confirmávamos as versões. Era a única maneira de permanecerem na Jordânia. De outro modo, eram expulsos.”
A história de Rushd é seu relato do que enxergou como agente da história palestina, talvez algo distorcida por sua experiência pessoal, por seus dramas, pela visão que construiu da realidade de ser um refugiado impedido de voltar à terra onde nasceu pela lógica que sustenta o Estado de Israel.

Lembranças da ocupação
Mohamad Tamimi também viveu a nakba. Tinha sete anos no momento da catástrofe. E ainda guarda algumas lembranças daquele 1948. Ele nasceu em 1941, em uma aldeia próxima a Ramallah, mas mudou-se ainda criança para Lod, onde ficou até 1948, quando Israel foi criado. Lod é hoje a cidade do aeroporto de Tel-Aviv. Ali, durante o início do século XX, houve uma grande migração judaica. “Nessa cidade, os britânicos autorizaram que os judeus andassem armados. Um árabe, se desconfiavam que tinha uma bala de revolver em casa, era condenado a cinco anos.” No Lod, a família de Mohamad trabalhava com agricultura, em plantações de laranja e limão. Com a catástrofe, voltaram para sua cidade. “Meu pai tinha duas casas na Cisjordânia, uma feita de materiais mais rústicos e outra de barro, melhor. Ele cedeu a melhor casa para os refugiados que chegavam à região em que vivíamos. Muitos dos que se refugiaram e foram expulsos procuraram alguém que já tivesse casa na região de Ramallah.”
Tamimi conta ainda lembrar-se do momento da catástrofe. “No primeiro mês, ainda chegava alguma ajuda humanitária, mas depois isso acabou e as pessoas começaram a viver com fome, sem condição nenhuma, sem emprego, sem nada. Isso já na terra de 1967. As mulheres ficavam de manhã até a noite pegando pedras nas ruas, por cinco centavos, para poder comer. Dava para comprar um quilo de farinha.”
Em 1967, ocorreu a ocupação dos territórios palestinos legalmente reconhecidos pela ONU (Organização das Nações Unidas), um novo baque para a população local. Tamimi tem memórias desse momento mais claras. No início, os palestinos ainda podiam ver aviões jordanianos que iam e voltavam no que se acreditava ser uma defesa árabe dos palestinos. “Um dia, apenas um avião voltou e não vimos mais nenhum. As forças jordanianas anunciaram que tinham tomado um pequeno território que pertencia a Israel, mas a notícia verdadeira era que eles tinham se retirado por completo e deixado os palestinos e o território da Cisjordânia. Mesmo com o acordo de retirada com o governo israelense, o exército ainda bombardeou os carros, as tropas e tudo que saía da Palestina para a Jordânia.” Tamimi e Rushd dividiram a mesma terra, provavelmente em igual momento, mas por um pequeno período. Eles, e suas famílias, jamais voltariam.
Tamimi divide sua vida em etapas, e cada uma é quebrada por um deslocamento, sinônimo de começar de novo, do zero. Depois de ser expulso de sua cidade em 1967, foi para o Líbano, onde viveu até 1982, quando a invasão israelense, ao lado de tropas falangistas libanesas, promoveu os massacres de Sabra e Chatila. Dali, foi para o Iraque, onde viveu até 2003. Com a invasão estadunidense, os palestinos foram perseguidos de forma violenta e para sobreviver tiveram que fugir. Passaram quatro anos no campo de refugiados de Ruweished. “Cada etapa consumia a anterior, tudo se perdia. Você ficava sem nada, perdia tudo que havia conquistado.” Agora, Tamimi, aos 68 anos, no Brasil, começa tudo de novo.

Tags: