Saudades da Palestina
Por Soraya Misleh e Arturo Hartmann
Abder Raouf Ibrahim Yusuf Misleh é palestino. Desde 1956 não vê mais sua terra, não tem contato com o lugar onde nasceu e sofre os sentimentos de nostalgia e impotência de um refugiado na diáspora. Ele é de Kakun, uma aldeia que ficava a 8km do mar. Ficava. Hoje não existe mais, “os judeus destruíram ela inteira, construíram lagoas lá para criação de peixes, porque o lugar é muito plano”. Aos 73 anos, Abder Raouf Misleh ainda lembra da sua curta vida na Palestina e do momento em que foi testemunha da nakba. Aqui, um relato de olhos que enxergaram a expulsão e pés que andaram o caminho da catástrofe. De sua vida em São Paulo, parece ainda enxergar e caminhar sobre as ruínas de sua Kakun.
Como era a vida na sua terra?
Em 1945 eu tinha dez anos, meu pai era agricultor e arrendava terra, tinha 200 hectares em que era cultivado o trigo. Meu pai andava a cavalo no meio daquele trigo e ficava cantando, de tão bonita que era a plantação, o trigo era mais alto do que ele, chegava a 1,90m. Uma noite eu dormi no meio daquela plantação. Era lua cheia, meu pai falou para mim: Filho, você é pequeno, vai dormir. Era meia-noite, porque durante o dia era muito calor, então trabalhava-se a noite inteira. Eu peguei o sapato, pus no chão, pus um lenço embaixo da minha cabeça, um maço de trigo sob meu corpo e dormi. Aquela noite eu não trocava por nada nesse mundo, senti um prazer que não tem limite. Não existiam nas aldeias convites para casamento, todo mundo participava. Era assim, vivendo em paz, com carinho. A gente tinha ligações com colonos judeus que viviam pertinho da aldeia, a gente vivia muito bem com eles, o problema foi o sionismo. Mas esses judeus apoiaram de maneira violenta.
O senhor lembra o dia exato em que as tropas de Israel chegaram a sua aldeia?
Foi em 14 de maio de 1948. A Palestina tem 28 mil km2, um terço é deserto, outro é montanha e outro é terra plana, eu nasci na terra plana. Até que fizeram uma divisão da Palestina em 1947 e o cemitério da aldeia faria parte do futuro Estado de Israel. Meu pai falava: Não é possível, a gente tem parente enterrado, não pode nem visitar mais? Em 1948, os líderes árabes venderam a Palestina. Tanques do exército iraquiano estavam na minha aldeia e o coronel, que estava com 35 soldados, telefonou para os comandantes ingleses, que mandaram eles recuarem. Esse coronel era um patriota, estavam também 300 a 400 soldados palestinos da minha aldeia, eles não tinham treinamento, os iraquianos tinham. Ele falou: Nós não vamos obedecer à ordem e vamos defender a aldeia até a morte. O comando geral ficava a menos de 3km de distância e deixou todos os iraquianos e os soldados da minha aldeia morrerem. A nossa casa foi invadida e perdemos tudo, a gente não tinha nem o que comer. Fomos para a casa dos meus tios, que era bem simples, nas montanhas, na Cisjordânia, e ficamos mais ou menos quatro meses. Para sobreviver, porque até os animais que meu pai tinha foram mortos, perto da fronteira, tinha uma área lá em que estava plantado milho branco, de noite parávamos o caminhão em uma vala e conseguimos tirar cinco caminhões, os vizinhos fizeram o mesmo. Daí, as metralhadoras começaram a cantar. Meu pai, que tinha 12 filhos, falou: Vamos dividir entre todos. Cada irmão ficou com dez sacos de 50kg, com aquilo, que hoje não corresponde a mais do que R$ 100, nós começamos a vida.
O senhor veio para o Brasil quando?
Dia 8 de junho de 1956. Foram quatorze dias de viagem de navio, desembarcamos em Santos, era bem cedo, 8h, 8h30. Encontrei com meus irmãos no mesmo dia, Hasan e Muhamad, que ficou três anos no Brasil, ele tinha sete filhos lá na Palestina, juntou 5, 6 mil dólares e voltou para criá-los. Na situação que eles viviam não tinha como mandar estudar e não tem um deles que não tem diploma universitário. Estudaram através de bolsa de estudos. Hoje, o povo mais culto do Oriente Médio é o palestino, não existe analfabeto desde 1956, e não tem onde cair morto, mais de 4,5 milhões vivem em campos de refugiados.
Qual a sua expectativa em relação à Palestina?
A gente tem que esperar, 100 anos, 200 anos, até aparecer uma força superior a Israel, cultural e militarmente, e recuperar a nossa terra. O império estadunidense não vai durar a vida inteira, todo império um dia tem fim.
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