Agitar, para turvar a água

A 'solução' de 57 Estados, do rei Abdullah da Jordânia
Não estamos falando de israelenses e palestinos sentar para conversar, mas de os israelenses sentarem com palestinos, os israelenses sentarem com sírios, os israelenses sentarem com libaneses. E com os árabes e o mundo muçulmano fazendo fila para abrir negociações diretas com os israelenses, ao mesmo tempo. Esse o trabalho que teria de ser feito nos próximos dois meses para dar resposta regional ao problema. Não mais uma solução de dois Estados: é uma solução de 57 Estados.

"É afirmativa forte, a nossa, quando oferecemos um terço do mundo, de braços abertos, para encontrar os israelenses. O futuro não é o Rio Jordão ou as colinas de Golan ou o Sinai. O futuro é do Marrocos, no Atlântico, até a Indonésia, no Pacífico. Acho que o preço é esse." (Rei Abdullah da Jordânia, em entrevista ao Times de Londres, 11/5/2009).

Analistas experientes que muito já ouviram da litania das "propostas de paz" no Oriente Médio, inevitavelmente esbarram num obstáculo que impede a implementação de qualquer proposta: Israel sempre tem outro "problema" a enfrentar, antes de poder resolver a disputa com os palestinos.

A desculpa fabricada varia regularmente entre os suspeitos de sempre, países ou partidos - Hamás, Hizbóllah, Síria, Iraque, Iran etc. Um ou outro sempre é inevitável ameaça "existencial" contra um país armado com bombas atômicas. Mediante o truque de convencer os EUA de que tem questões mais prementes a enfrentar, Israel tem conseguido atrasar, adiar ou suspender, há décadas, qualquer negociação com os palestinos.

Assim, as colônias ganham tempo para crescer, mais terra é expropriada, mais casas de árabes são demolidas e mais palestinos são 'transferidos'. E assim continuará até que "os fatos objetivos" se tornem tão irreversíveis que será completamente irrelevante discutir qualquer coisa com os palestinos, seja independência seja a criação de algum Estado, porque nenhuma independência e nenhum Estado serão, então, viáveis.

Essas maquinações estiveram ativadas essa semana, quando o primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, encontrou-se com o presidente Obama. A prioridade total na agenda de "Bibi" era o Iran, não a Palestina (nem se pronunciou a palavra "Palestina"). A mensagem implícita foi que, antes de poder pensar em Palestina, Israel tem de enfrentar o Iran. O representante do Ministro de Negócios Estrangeiros, Daniel Ayalon, foi ainda mais claro: "O tempo para o Iran deve ser medido em meses", disse ele; e o cronograma para a criação de um Estado Palestino "permanece aberto".

Obama cedeu lamentavelmente a Netanyahu, e disse que o Iran ganharia tempo depois das eleições presidenciais de junho, mas só até o fim do ano, quando então já deverá ser bem visível "um esforço de boa fé" para por fim ao programa nuclear. Ninguém impôs prazo semelhante a Netanyahu, para que exiba qualquer esforço na direção de uma solução de dois Estados.

Então... onde entra, nesse quadro, a solução de 57 Estados, do rei Abdullah? O rei da Jordânia esteve com Obama antes de Netanyahu. Evidentemente discutiram a visita iminente.

Para início de conversa, é preciso saber que Abdullah não está em posição de falar em nome dos 57 Estados-membros da Organização da Conferência Islâmica (OIC); muito menos está em posição de declarar que todos os 57 Estados estarão "em fila" e que receberão Israel "de braços abertos". Foi presunçosa e mal pensada a ideia de introduzir a possibilidade de negociações paralelas, com pauta necessariamente variada, quando a questão primeira e central tem de ser a questão palestina.

Abdullah sabe, é claro, que o governo de Israel agarrará a oportunidade de evitar negociações substantivas e diretas com os únicos interlocutores necessários para resolver o conflito Israel-Palestina: os palestinos. Os outros 56 Estados só foram lembrados para agitar o lago e turvar a água, dispersando a necessária atenção e a necessária energia para construir alguma paz no Oriente Médio.

E não se pode esquecer o suplício dos palestinos em Gaza. Sobreviventes de uma guerra cruel, de bombas de fósforo disparadas contra civis, da destruição de escolas e armazéns da ONU, de assassinato de civis rendidos sob bandeira branca, e sobreviventes de 18 meses de um bloqueio desumano, que já converteu em crianças desnutridas praticamente metade da população infantil de Gaza, os palestinos continuam a sofrer, até hoje.

E, agora, Abdullah diz que o futuro não é o Rio Jordão ou as colinas de Golan - e, por extensão, tampouco será Gaza, a Cisjordânia ou Jerusalém? - mas "do Marrocos, no Atlântico, à Indonésia, no Pacífico".

Os habitantes de Gaza e todos os demais palestinos - com o devido respeito aos irmãos muçulmanos que vivem entre o Marrocos e a Indonésia -, não podem esperar mais. A Palestina está sendo engolida, mordida a mordida, pedaço a pedaço. A muralha que cerca Jerusalém e a Cisjordânia é uma modalidade complementar de anexação: complementa a expansão e a construção de colônias. Gaza permanece em ruínas; não é permitida a entrada de nenhum material de construção. E os doentes e moribundos não são autorizados a sair para buscar socorro médico.

Imagine-se o que pensarão os sobreviventes, em Gaza, ao ouvir Abdullah falar a Israel sobre o "preço" de alguma coisa que iria do Marrocos à Indonésia... enquanto a terra na Palestina continua a encolher. O plano de Abdullah não é incentivo aos israelenses: é insulto aos palestinos.

Temos de ser claros: só há uma questão, e tem de ser resolvida antes que qualquer outra possa ser sequer considerada. É a principal questão de todo o Oriente Médio e não pode ser nem diluída nem marginalizada, associando-a a acordos improváveis entre países situados em cantos opostos do planeta. Essa questão é a Palestina. A pretensiosa 'solução' de 57 Estados, do rei Abdullah, é grande desserviço à causa da Palestina.

22/5/2009, Rannie Amiri, Counterpunch (ed. 22-24/5/2009)
http://www.counterpunch.org/amiri05222009.html
traduçao Caia Fittipaldi