Massacre de Jenin - Parte I

PALESTINA
Jenin: um crime de guerra
Jenin foi invadida em 3 de abril, quinto dia da ofensiva israelense. A batalha foi dura e desigual. Os palestinos sofreram perdas enormes e os feridos agonizavam, uma vez que as ambulâncias do Crescente Vermelho foram proibidas de circular no campo
Amnon Kapeliouk

A paisagem desafia qualquer descrição. Uma encarnação do horror, uma visão de após-furacão. Casas destruídas, total ou parcialmente, restos de cimento armado e de ferro, entremeados de fios elétricos. Carros reduzidos a pó por tanques ou mísseis acrescentam uma dimensão bárbara a esse espetáculo assustador. Um cheiro forte de cadáveres flutua sobre os escombros. Nada resta da infra-estrutura.

No meio do campo de refugiados, um terreno baldio retangular. Era o bairro Hauachin, formado por umas 150 casas (de um total de 1.100 em todo o campo). Buldôzeres gigantes demoliram completamente o bairro antes de aplainar o solo. Mulheres, velhos, crianças e homens perambulam pelos escombros, à procura de familiares soterrados.

Crianças que perderam o sorriso
Uma encarnação do horror: casas destruídas, carros reduzidos a pó por tanques ou mísseis e um cheiro forte de cadáveres flutuando sobre os escombros
Um homem de trinta anos cava a terra com uma pá, enquanto seu filho afasta os escombros com as mãos. Esperam encontrar os membros da família que foram soterrados vivos. Umas dezenas de metros mais adiante, três homens retiram o cadáver do pai, desfigurado, dos restos do que foi a casa deles. Outros procuram objetos no que foi sua residência. O campo de refugiados de Jenin é um dos mais pobres da Cisjordânia.

No canto de um prédio semidestruído, uma mulher de uns quarenta anos chora e grita: “Deus! Vingue-nos e faça com que Sharon morra.” Membros de sua família, insiste, jazem sob os escombros. Algumas crianças olham em volta, atônitas. O horror apagou o sorriso de seus rostos. “Sharon, com sua operação louca e criminosa, fez de todas essas crianças futuros homens-bomba. É ele, esse monstro, que nos levará a todos a dar o troco por todos os meios, para expulsar seu exército e seus colonos de nossa terra”, diz uma jovem cuja família inteira foi salva, fugindo para a aldeia vizinha de Roumaneh, no primeiro dia do ataque contra o campo.

“As terríveis destruições no campo de refugiados foram feitas de acordo com um plano minucioso. Sharon queria nos aterrorizar”, explica Mohammad Abu el-Hija, dentista de 32 anos, cuja família foi expulsa em 1948 da região de Haifa, como muitos outros moradores. De 80% a 90% das casas estão inabitáveis. Do lado leste e no centro da localidade, a devastação é total. O delegado geral do Escritório de Socorro e de Obras das Nações Unidas para os refugiados da Palestina (UNRWA), Peter Hansen, expressou seu horror e reconheceu o campo como zona sinistrada.

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil
(Trad.: Regina Salgado Campos)

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