Massacre de Jenin - Parte II

Atirar em tudo que mexe...
Jenin foi invadida em 3 de abril, quinto dia da ofensiva contra as cidades palestinas da Cisjordânia. Tiroteio intenso, obuses lançados de tanques e mísseis de helicópteros marcaram o início do ataque contra o campo. O toque de recolher foi decretado e os moradores, aterrorizados, refugiaram-se em suas casas. Como os tanques não conseguiam entrar nas ruelas, buldôzeres gigantes destruíam as casas dos dois lados da via. Uma segunda vaga de destruição começou quatro dias mais tarde com a demolição sistemática do centro, onde se erguiam prédios de um a três andares. Era ali que combatentes palestinos, armados de fuzis e de explosivos, tinham-se agrupado para se oporem a um dos exércitos mais modernos do mundo. A batalha foi muito dura e desigual. Os palestinos sofreram perdas enormes e os feridos – combatentes, mas também, na maioria, civis – agonizavam, uma vez que o exército israelense proibia as ambulâncias do Crescente Vermelho de circularem no campo.

Um homem cava a terra com uma pá, enquanto o filho afasta os escombros com as mãos. Procuram os membros da família que foram soterrados vivos
Em 9 de abril, os palestinos armaram uma emboscada em que treze soldados israelenses foram mortos. O exército então deu instruções para evitar a qualquer preço novas baixas. Atiraram, portanto, contra tudo o que se mexia. Os soldados não haviam sido informados de que o campo era um reduto de terroristas do Hamas e do Jihad? Era o que justificava, para eles, uma punição coletiva do campo... Intensificou-se então a destruição das casas com dinamite. Nesse campo, como em todas as cidades palestinas, qualquer instituição ou escritório da Autoridade Palestina foi destruído sistematicamente: tratava-se de aniquilar todos os seus símbolos e todos os seus meios.

O crime de guerra como norma
Todos os apartamentos foram sistematicamente vasculhados: com a família trancada num único compartimento, os soldados derrubavam os móveis, abriam os armários, jogando tudo no chão e deixando para trás uma desordem indescritível. Multiplicaram-se os roubos de dinheiro, de jóias e até de cigarros (“lembranças”, na linguagem militar deles). Para abrir as portas, utilizavam-se de um escudo humano, ou seja, eram precedidos por um morador do campo – uma prática que evidencia um “crime de guerra”. Se não havia resposta, explodiam a porta. Um “incidente” entre muitos: um “escudo” diz ao soldado que ouviu barulho no interior da casa, mas este último explode a porta assim mesmo, ferindo gravemente uma mulher. “Lamento”, disse o soldado, antes de passar à porta seguinte...

As ruínas a céu aberto de Jenin são prova de uma vontade destruidora. Mas quantas foram as vítimas? O campo contava com 14.500 moradores. Umas mil pessoas fugiram do local para as aldeias da vizinhança na véspera do ataque israelense. No segundo dia da entrada dos blindados, alto-falantes do exército conclamaram os palestinos a abandonarem o campo. Decretado no início da operação, o toque de recolher foi suspenso para facilitar sua saída. Nesse mesmo dia e durante os dias seguintes, alguns milhares de pessoas foram embora, a pé, em direção a sete pequenas aldeias da região: 4 mil permaneceram escondidas em suas casas em condições catastróficas: sem água, comida ou eletricidade, sem poder ir ao hospital e numa atmosfera infernal de tiros, de bombardeios e explosões, dia e noite.

“Abreviando a vida” de seres humanos
O exército israelense deu instruções para evitar a qualquer preço novas baixas. A ordem, portanto, era atirar contra tudo o que se mexia
Os helicópteros “regaram” o campo sem piedade. Aqui, só os Cobras – temíveis “monstros” que agiram durante a guerra do Vietnã – estavam em ação. Um piloto da esquadrilha dos Cobras, o tenente-coronel Sh., conta: “Nossa esquadrilha lançou, durante todos os dias dos combates, uma quantidade enorme de mísseis no interior do campo de refugiados. Centenas de mísseis. Toda a esquadrilha foi mobilizada para essas operações, inclusive reservistas (...). Durante os combates, havia sempre acima de Jenin dois Cobras prontos para lançar um míssil na casa indicada pelo Quartel General do solo (...). Os ‘combatentes voadores’ não poderão garantir que seus mísseis não atingiram civis”.

Pergunta: - Será que isso não se assemelha a um falso vídeo game? Vocês estão no ar com um míssil Tau e eles, com Kalachnikovs...

– “É, não é um combate de igual para igual, e ainda bem (...). Nunca disparei um míssil contra mulheres e crianças. Será que não abreviei, no final das contas, a vida de seres humanos? A resposta é positiva. Não posso fazer nada. 1 ”

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil
(Trad.: Regina Salgado Campos)

Login do usuário