Mahmud Darwish

Carteira de Identidade

Registra-me
Sou árabe
O número de minha identidade é cinqüenta mil
Tenho oito filhos
E o nono... virá logo depois do verão
Vais te irritar por acaso?

Registra-me
sou árabe
trabalho com meus companheiros de luta
em uma pedreira
tenho oito filhos

arranco das pedras
o pão, as roupas, os cadernos
e não venho mendiigar em tua porta
e não me dobro
diante das lajes de teu umbral
vais te irritar por acaso?

Registra-me
Sou árabe
Meu nome e muito comum
E sou paciente
Em meu pais que ferve de cólera
Minhas raízes...
Fixadas antes do nascimento dos tempos

Confissão

Sonhei com um casamento
Sonhei com um par de olhos enormes
Sonhei com a garota das traças
Sonhei com uma oliveira que não se vende
Por uns poucos centavos
Sonhei com as impossíveis muradas da história
Sonhei com o cheiro das amendoeiras
Amparando as tristezas das longas noites
Sonhei com a família
E os braços de minha irmã
Me protegendo como um escudo de hermoísmo
Sonhei com uma noite de verão
Com uma cesta de figos
Sonhei muito mais
Me desculpe por isso....

O Limoeiro

Tínhamos atrás das grades
Um limoeiro
As frutas amareladas brilhavam como lâmpadas
As flores eram um leque cheiroso no nosso bairro

Tínhamos, atrás das grades
Um limeiro. Nosso
Mas, para fazer enfeites com seus galhos
E perfume das suas flores
O cortaram
Ficamos
Sem o nosso limoeiro
Nossos olhos
Nunca mais viram a primavera.

Biografia de Mahmud Darwish

Mahmud Darwish, palestino nascido no ano de 1942. Como muitos dos poetas da resistência palestina, teve desde o princípio uma clara militância política e foi preso em Israel. Abandonou esse país no começo dos anos 70, viveu em alguns países socialistas europeus, no Egito, e depois vários anos em Beirute, onde se transformou em um dos membros mais destacados do Centro de Pesquisas Palestinas, dirigindo a revista Shuún Filistiyya.

Morta No. 18

As oliveiras eram uma vez um bosque verde
Eram
o céu, meu amor
Parecia uma selva azul
Porque mudaram nesta tarde?
Na curva do caminhão dos trablhadores
Tranqüilamente
Nos mandaram ficar em pé
Tranqüilamente
Meu coração foi uma vez
Como um pássaro azul,
Ó ninho de meu amado!
Eu estava com teu pano, e era muito branco
O que o manchou nesta tarde?
Não entendo nada, meu amor
Pararam o caminhão e nos fizeram descer
Com a maior tranqüilidade
Te deixo tudo o que era meu
Te do a sombra, a luz
O anel de casamento, tudo o que você quiser

A Espera Dos Que Voltarão

Meu povo plantou suas tendas na areia
E estou acordado com achuva
Sou filho de Ulisses aquele que esperou o correio do
Norte
Um marinheiro me chamou, mas eu não parti
Atraquei o barco e subi ao cume de uma montanha

- Ó rocha sobre a qual meu pai orou
Para que fosse abrigo do rebelde
Eu não te venderia por diamantes
Eu não partirei
Eu não partirei
As vozes dos meus fendem o vento, sitiam as cidadelas
- Ó mãe, espera-nos no umbral
Nós voltaremos
Este tempo já não é como eles imaginam
O vento sopra segundo a vontade do navegante

Carta do Exílio

I

Te saúdo.. te beijo

Que mais posso dizer

Por a onde começar e como terminar

O tempo gira sem descanso

E tudo que passou, no meu exílio

Uma bolsa em que ponho pão seco

Um caderno em que descarrego às vezes

Em que cuspo todo meu ódio

Por onde começar

Tudo o que se disse ou o que se dirá,

Pode terminar com um abraço ou um aperto de mãos

Fará que o exilado volte para casa

Fará cair a chuva

Fará que brotem penas

Cantos para os homens

Venham companheiros de correntes e tristezas
Caminhemos para a mais bela margem
Nós não nos submeteremos
Só podemos perder
O ataúde

Mais alto
Nossas gargantas
mais alto
nossas esperanças
mais alto
nossas canções
fabricaremos com nossa potência
crucifixos do passado e do presente
uma escada para os amanhãs...
e nossos inimigos nos insultam

“Hala... selvagens... árabes”
sim! Árabes
e estamos orgulhosos
e sabemos como empunhar a foice
como resistir
inclusive sem armas
e sabemos como construir a fábrica moderna
a casa
o hospital
a escola
a bomba

Chamada da Tumba

Em memória de massacre de Kofr Kassem

I
Minha morte aconteceu há oito anos
Tenho a mesma idade de meu pai
Chamamos a todos os viventes
A todos os que querem viver por muito tempo
Sobre a terra
Não debaixo dela
A todos os que querem
Que a trigo madure em seu campo
Semear e colher
Que a massa fermente em seus lares
Fazer o pão e comê-lo
Nós lhes pedimos: não durmam
Se querem viver por muito tempo
Sobre a terra
Não debaixo dela
Montem guarda... aqui o sol é de barro e miséria
Nossa idade se conta em anos de morte
Minha morte aconteceu há oito anos

Contos Cubanos

I
Não tenho tempo agora
De contar as histórias dos mártires
Não tenho tempo
Os lábios das feridas em curso
Me sangram... devoram meus últimos instantes
Mas tu não chores
Meu sangue é um fio de azeite
Que alimenta a lâmpada da liberdade
Não chores tu
Enquanto cuba esteja em pé

II
Mãe
As lágrimas sobre mártires vivos
São uma grande vergonha
Ora pela terra verde
Que seja pródiga em pães para seus filhos
Reza pelos vivos
Que permaneçam anos em sua pátria
Não comi meu pão... Ó mãe
Os inimigos se fartaram... inclusive de minha carne

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